Painel de Dados: Mercado de Crédito no Estado do Ceará

Boletim do Economista – ISSN 3085-9670

Jaime de Jesus Filho – Doutor em Economia. Conselheiro do CORECON-CE, consultor da SEFAZ/CE e professor da Fundação Getulio Varga (FGV). Contato: jjaimefilho@gmail.com

Rodrigo Stefe – Economista. Doutorando em Administração (Unifor). Professor de Economia da Universidade de Fortaleza (Unifor)

O Painel de Dados visa lançar luz sobre dados econômicos e fiscais dos municípios e do estado do Ceará. A disseminação e a transparência dos dados econômicos e fiscais são fundamentais para fortalecer a confiança da sociedade nas instituições públicas. Ao tornar essas informações mais acessíveis, promove-se o controle social, incentiva-se a participação cidadã e facilita-se a tomada de decisões mais informadas para o desenvolvimento sustentável e a redução das desigualdades.

Nesta edição analisamos a situação do mercado de crédito no estado do Ceará. O crédito e o funcionamento do mercado de crédito são peças centrais do desenvolvimento em estados como o Ceará porque transformam poupança em investimento e consumo produtivos, aliviando as restrições de liquidez que limitam empresas, produtores rurais e famílias. Em economias com renda per capita e profundidade financeira ainda abaixo da média nacional, o acesso a crédito de médio e longo prazo permite que micro e pequenas empresas ampliem capacidade, que o agronegócio e a indústria local financiem estoques e modernização e que o setor imobiliário e de serviços sustentem emprego e demanda interna. Um mercado de crédito mais competitivo, com informação cadastral melhor, garantias mais fluidas e menor spread, reduz o custo do capital, amplia a inclusão financeira e favorece a formalização. Sem esse canal, o crescimento tende a ficar preso à poupança corrente e ao ciclo de curto prazo. O crédito multiplica o efeito de políticas públicas, da reforma tributária e dos investimentos em infraestrutura sobre a produtividade e a renda. O ponto decisivo, contudo, não é apenas o volume emprestado, e sim a qualidade da alocação. Crédito direcionado a projetos viáveis eleva o produto. Em contrapartida, crédito mal concedido,especialmente o de consumo sem lastro na renda, pode endividar famílias e frear o próprio desenvolvimento que se pretende impulsionar.

Os dados a seguir, jogam luz sobre a situação do crédito no estado do Ceará. Todos os dados foram obtidos no site scrutiniums.com.

1. Recorte

Os números abaixo usam o saldo da carteira ativa e a taxa de inadimplência das 26 unidades da Federação e do Distrito Federal no mês de julho de 2026. A carteira nacional, somada unidade a unidade, chega a R$ 7,574 trilhões.

2. Qual a fatia do Ceará

O Ceará tem saldo de R$ 175,50 bilhões. Isso equivale a 2,32% da carteira nacional. Em volume, o estado fica em 10º lugar, logo à frente de Pernambuco (R$ 173,16 bilhões; 2,29%) e atrás de Mato Grosso (R$ 263,39 bilhões; 3,48%).

São Paulo sozinho responde por 30,01% do saldo. Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul somam outros 30,89%. O Nordeste inteiro concentra 14,25% da carteira. Dentro da região, o Ceará responde por 16,26% do saldo nordestino, atrás apenas da Bahia (27,41% do Nordeste).

Gráfico 1. Participação de cada UF no saldo da carteira ativa (julho/2026). Ceará em destaque.

3. Inadimplência: o Ceará no ranking

A taxa cearense é 5,01%. No ranking de inadimplência, o estado fica em 18º, portanto na metade inferior da lista (quanto menor a taxa, melhor a posição de qualidade da carteira). A média simples das 27 unidades é 5,61%. A média ponderada pelo saldo é 4,74%, puxada para baixo por São Paulo, Santa Catarina e Distrito Federal, que juntam volume alto com taxa baixa.

O Ceará fica 0,60 ponto percentual abaixo da média simples nacional e 0,27 ponto acima da média ponderada. Entre os nove estados do Nordeste, só o Piauí tem taxa menor (4,88%). Maranhão (9,11%) e o conjunto Norte-Centro-Oeste puxam o topo da inadimplência. No outro extremo, DF (3,54%), Santa Catarina (3,71%) e São Paulo (3,76%) fecham a lista.

Gráfico 2. Taxa de inadimplência por UF. Barra vermelha: Ceará (5,01%). Linha pontilhada: média simples (5,61%).

Nordeste

No recorte regional a leitura muda. A média simples do Nordeste é 5,76%. O Ceará fica 0,75 ponto abaixo dessa média e é o segundo melhor da região, depois do Piauí. A carteira cearense é a segunda maior do Nordeste, quase empatada com Pernambuco e bem abaixo da Bahia. Ou seja: o estado combina volume relevante na região com inadimplência abaixo da média nordestina.

Gráfico 3. Inadimplência nos estados do Nordeste. Ceará em destaque.

4. Leitura conjunta

Dois pontos valem juntos. Primeiro, o Ceará não é um mercado pequeno no Nordeste, mas é um mercado pequeno no país: 2,32% do saldo nacional. Segundo, a inadimplência de 5,01% não é baixa no padrão de São Paulo ou Santa Catarina, e também não é alta no padrão do Norte e de parte do Centro-Oeste. Fica no meio da distribuição nacional e na parte melhor do Nordeste.

Isso importa para política de crédito. Volume sozinho não descreve o estado. A carteira cearense é maior que a de Pernambuco e menor que a da Bahia, com risco de atraso abaixo da média da região. Qualquer expansão de crédito no Ceará precisa olhar essa combinação de tamanho e qualidade, e não só o saldo em reais.

5. Tabela completa

Unidades ordenadas da maior para a menor taxa de inadimplência. Valores de saldo arredondados para uma casa decimal, em R$ bilhões.

UFInadimplência (%)Saldo (R$ bi)% da carteira
MA9,11114,01,50
TO8,4558,60,77
MS7,37142,41,88
GO7,09342,64,52
RO6,8264,30,85
AC6,4619,90,26
RR6,4616,70,22
PA6,33168,12,22
MT5,98263,43,48
AM5,7879,91,06
AL5,7259,90,79
AP5,6319,50,26
PB5,5177,21,02
SE5,5142,40,56
BA5,50295,93,91
PE5,34173,22,29
RN5,2472,40,96
CE5,01175,52,32
PI4,8869,10,91
RS4,87533,17,04
MG4,64670,68,85
PR4,48565,57,47
RJ4,28570,57,53
ES4,02132,01,74
SP3,762.273,030,01
SC3,71415,45,48
DF3,54158,82,10

Fonte: panorama da carteira ativa por UF, julho de 2026. Elaboração própria. scrutiniums.com

Nota: a participação percentual usa o total nacional de R$ 7.573,94 bilhões, soma das 27 unidades. Diferenças de arredondamento na casa decimal podem ocorrer na tabela.

6. Pessoa física e pessoa jurídica: Ceará e Brasil

A seção anterior trata de um corte transversal da carteira ativa em julho de 2026. Aqui entra a série mensal de inadimplência de pessoa física (PF) e pessoa jurídica (PJ), para o Ceará e para o Brasil, de março de 2011 a julho de 2026 (185 meses). A média de cada ano usa os meses disponíveis: 2011 começa em março e 2026 vai só até julho.

O padrão é estável. A inadimplência de PF fica acima da de PJ o tempo todo, no estado e no país. O Ceará roda quase sempre acima do Brasil na PF: em 98% dos meses a taxa cearense de pessoa física superou a nacional. Na PJ a relação é menos rígida. Em 58% dos meses o Ceará ficou acima do Brasil; entre 2019 e 2021 a PJ cearense ficou abaixo da nacional, na média anual.

Médias anuais da pessoa física

Na PF, o Ceará acompanha o ciclo brasileiro, com correlação de 0,90 entre as duas séries mensais, mas o nível cearense é mais alto. A média das médias anuais de 2011 a 2026 fica em 4,55% no Ceará e 4,14% no Brasil. O hiato abriu de verdade depois da pandemia: 0,89 p.p. em 2022 e 1,13 p.p. em 2023, o pico da série anual. Em 2024 o gap ainda era 0,76 p.p. Em 2025 e no parcial de 2026 ele encolheu (0,28 e 0,11 p.p.), porque a taxa nacional subiu mais rápido. Em julho de 2026 a PF cearense estava em 5,74% e a brasileira em 5,81%. Foi um dos raros meses em que o estado ficou abaixo do país.

Gráfico 4. Média anual da inadimplência de pessoa física. 2026 com janeiro a julho.

Médias anuais da pessoa jurídica

Na PJ o Ceará não fica sistematicamente pior. A média das médias anuais é 2,59% no estado e 2,42% no Brasil. Em 2017, 2019, 2020, 2021 e 2024 a média anual cearense ficou abaixo da nacional. O recuo de 2020-2021 é o mais marcado: 1,22% e 1,10% no Ceará contra 1,91% e 1,43% no Brasil. A partir de 2025 a PJ cearense volta a ficar pior. A média de 2025 foi 3,35% no estado e 2,68% no país (gap de 0,67 p.p.). No parcial de 2026, 3,69% contra 3,13%. Em julho de 2026: 3,56% no Ceará e 3,31% no Brasil.

A série mensal de PJ no Ceará tem picos isolados que puxam algumas médias (6,32% em fevereiro de 2018 e 5,55% em março daquele ano). Isso não muda o desenho de longo prazo, mas impede ler cada ano da PJ cearense como uma linha lisa.

Gráfico 5. Média anual da inadimplência de pessoa jurídica. 2026 com janeiro a julho.

PF e PJ no mesmo gráfico

PF Brasil e PF Ceará andam no andar de cima. PJ Brasil e PJ Ceará andam no de baixo. De 2021 para 2026 as quatro séries sobem. O movimento mais forte no Ceará foi o da PF entre 2021 e 2023 (de 3,34% para 5,23%) e o da PJ entre 2024 e 2026 (de 2,60% para 3,69% no parcial).

Gráfico 6. Médias anuais de PF e PJ, Ceará e Brasil.

Gráfico 7. Diferença Ceará menos Brasil, em pontos percentuais. Barra positiva: Ceará acima do país.

Como ler o recorte recente

Julho de 2026 fecha um ciclo de alta. Na PF, Ceará e Brasil convergiram depois do gap largo de 2022-2024. Na PJ, o estado abriu um hiato novo em 2025 e o mantém em 2026. Se a pergunta é qualidade da carteira de famílias, o Ceará deixou de ser um outlier recente e voltou a andar colado no país, ainda que o nível absoluto (perto de 5,7%) seja o mais alto desde 2012. Se a pergunta é empresa, o Ceará piorou em relação ao Brasil nos últimos dezoito meses.

Essas taxas não são o mesmo objeto da taxa única de 5,01% usada nas seções 1 a 5. Lá o recorte é o saldo da carteira ativa por UF em um mês. Aqui a série separa PF e PJ ao longo do tempo.

7. Médias anuais

Valores em percentual. 2011: março a dezembro. 2026: janeiro a julho.

AnoPF BrasilPF CearáPJ BrasilPJ Ceará
2011*4,945,182,132,25
20125,365,862,312,82
20134,615,192,122,89
20144,024,401,972,49
20153,924,112,352,44
20164,234,473,183,70
20173,974,133,553,29
20183,563,732,793,35
20193,483,632,482,00
20203,524,011,911,22
20212,973,341,431,10
20223,664,541,611,62
20234,105,232,572,64
20243,764,522,612,60
20254,554,832,683,35
2026*5,535,643,133,69

Fonte: série mensal de inadimplência PF e PJ, Brasil e Ceará, março/2011 a julho/2026. Elaboração própria. scrutiniums.com

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