Boletim do Economista – ISSN 3085-9670

Rivanio Paulino – Contador e Mestre em Economia, com mais de 20 anos de experiência em estruturação, criação e aquisição de negócios. Diretor de Gestão Estratégica e Financeira do ISGH, Diretor Administrativo Financeiro da ABRH Ce e Membro do IBEF Ce
RESUMO
A otimização de recursos públicos na saúde representa um dos maiores desafios econômicos contemporâneos. Este artigo analisa as vantagens do modelo de gestão por Organizações Sociais de Saúde (OSS), combinando fundamentação teórica com a experiência prática do Estado do Ceará. A partir do marco regulatório nacional e estadual, examinam-se os ganhos de eficiência, a flexibilidade orçamentária, a estrutura microeconômica do custo por leito e a qualidade assistencial proporcionados pelo modelo, tomando como estudo de caso a expansão da rede estadual regionalizada então operacionalizada pelo Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH). Demonstra-se como a sinergia entre o financiamento público e a operacionalização privada sem fins lucrativos evidencia a consolidação do modelo sob a ótica da segurança legal, da sustentabilidade financeira e da entrega de valor à sociedade.
1. INTRODUÇÃO
A Ciência Econômica dedica-se centralmente à alocação eficiente de recursos escassos perante necessidades humanas ilimitadas. No setor de saúde pública, essa premissa ganha urgência crítica: o aumento da expectativa de vida, as novas doenças ou aumento de incidência de doenças conhecidas, o encarecimento das tecnologias médicas e a transição epidemiológica pressionam continuamente os orçamentos governamentais. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta o desafio de garantir acesso universal e gratuito sob rigorosas restrições fiscais.
Diante do modelo tradicional de administração pública direta — frequentemente onerado por amarras burocráticas e lentidão operacional —, a gestão descentralizada por meio de Organizações Sociais de Saúde (OSS) consolidou-se como uma alternativa viável e de alto desempenho. O Estado do Ceará destaca-se nacionalmente como vanguarda nesse movimento, ao estruturar uma rede hospitalar regionalizada gerida em parceria com o terceiro setor. O objetivo deste artigo é demonstrar as vantagens econômico-financeiras, operacionais e de governança do modelo de OSS, utilizando a experiência cearense e o pioneirismo do Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH) como evidências práticas dessa eficiência.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E MARCO REGULATÓRIO
O arcabouço jurídico das OSS foi estabelecido no âmbito da Reforma do Aparelho do Estado com a Lei Federal nº 9.637/1998. No Ceará, a consolidação legal ocorreu por meio da Lei Estadual nº 12.781/1997, antecipando-se em demonstrar a visão estratégica do Estado sobre a publicização dos serviços não exclusivos de saúde. A constitucionalidade do modelo foi chancelada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da ADI 1.923/DF, que ratificou a legitimidade da delegação da execução de serviços públicos a entidades privadas sem fins lucrativos.
Sob a ótica da Teoria dos Contratos e do problema Principal-Agente, o modelo de OSS reestrutura os incentivos da administração pública. O Estado (Principal) assume o papel de ordenador da política de saúde, definidor de diretrizes e financiador do sistema. A OSS (Agente) assume a execução finalística sob rigoroso monitoramento à sua autonomia gerencial. A assimetria de informação e o risco moral são mitigados pelo Contrato de Gestão, instrumento de parceria e fomento que substitui o controle formal de meios e processos pelo monitoramento contínuo de resultados, metas de atendimento e indicadores de qualidade.
3. VANTAGENS ECONÔMICO-FINANCEIRAS E DE ESCALA
A racionalização de custos e o ganho de eficiência representam os argumentos centrais para a adoção das OSS sob a perspectiva econômica:
– Poder de Negociação, Economias de Escala e Processo de Contratação: Entidades que gerem múltiplas unidades de saúde centralizam suas cadeias de suprimentos. A aquisição consolidada de insumos médico-hospitalares, medicamentos e equipamentos gera forte poder de negociação frente aos fornecedores, reduzindo expressivamente os custos unitários em comparação a compras isoladas efetuadas pela administração direta. O processo de contratação com mais velocidade, mesmo seguindo ritos que garantem segurança, são diferenciais que influenciem na eficiência da assistência e melhor valor de compra.
– Flexibilidade Orçamentária e Previsibilidade: O repasse orçamentário atrelado a um Contrato de Gestão estabelece um orçamento global com metas claras. Diferente da rigidez do orçamento público tradicional, a entidade possui margem para realocar recursos internamente em resposta a variações de demanda ou emergências sanitárias, otimizando o fluxo de caixa e reduzindo o desperdício.
– Manutenção Preventiva e Preservação do Patrimônio: O modelo privado de gestão patrimonial prioriza a manutenção preventiva de parques tecnológicos (como tomógrafos e ressonâncias). Isso evita paralisações prolongadas de equipamentos críticos, eliminando custos decorrentes de ociosidade operacional e de contratações emergenciais de serviços terceirizados.
4. ANÁLISE MICROECONÔMICA DO CUSTO DO LEITO DE UTI ADULTO
A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) representa a estrutura de maior densidade tecnológica e custo operacional dentro da gestão hospitalar. O estudo do custo médio por diária de UTI Adulto explicita como a arquitetura gerencial de cada modelo reflete na composição de preço e na eficiência do gasto público.
Estudos de valoração hospitalar e custos em saúde no Brasil demonstraram variações expressivas na composição do custo médio por leito/dia de UTI Adulto entre os três modelos de gestão:
- Administração Pública Direta: Custo/diária estimado entre R$ 2.800,00 e R$ 3.800,00. Composição principal: folha estatutária e ociosidade processual. Giro de leito baixo por dificuldade em alguns exames, medicação específica para o cuidado ou mesmo dificuldade na disponibilidade de especialista para definir a melhor condução do paciente ou sua alta.
- Hospital Público gerido por OSS: Custo/diária estimado entre R$ 1.800,00 e R$ 2.400,00. Composição principal: custos com pessoal e operacionais otimizados em escala. Giro de leito alto com protocolos rígidos.
- Hospital Privado Lucrativo: Custo/diária estimado entre R$ 4.500,00 e R$ 7.000,00. Composição principal: margem de lucro corporativa, tributos e hotelaria.
A desproporção no custo da Administração Direta decorre da elevada rigidez na gestão do trabalho (folha estatutária com meta de produtividade indefinida) e da ineficiência na cadeia logística, que estende desnecessariamente o tempo médio de internação do paciente por atrasos na liberação de exames e pareceres médicos. Em contrapartida, o Hospital Privado opera sob precificação de mercado que incorpora margem de lucro, impostos comerciais e recuperação de investimentos em hotelaria.
O Hospital Público sob OSS atinge a “fronteira de eficiência microeconômica”: elimina a margem de lucro privada (por ser entidade sem fins lucrativos) e combate o desperdício do setor público direto por meio de giro rápido de leito, padronização farmacêutica e otimização dos plantões médicos, resultando no menor custo médio por vida salva.
5. ANÁLISE COMPARATIVA DE ATRIBUTOS: GESTÃO DIRETA VS. OSS
- Natureza do Vínculo: Administração Direta (Estatutária) vs. OSS (Contrato de Gestão / Direito Privado). Impacto: Mudança do foco no processo burocrático para o cumprimento de metas.
- Regime de Contratações: Administração Direta (Lei nº 14.133/2021) vs. OSS (Regulamento Próprio). Impacto: Agilidade no fluxo de compras e redução drástica de dispensas emergenciais.
- Alocação Orçamentária: Administração Direta (Rubricas orçamentárias rígidas) vs. OSS (Orçamento global por metas). Impacto: Flexibilidade para realocação rápida conforme oscilação da demanda.
- Poder de Barganha: Administração Direta (Compras pulverizadas ou licitações lentas) vs. OSS (Compras em rede e negociação em escala). Impacto: Menor custo unitário na aquisição de insumos.
- Gestão Patrimonial: Administração Direta (Manutenção corretiva predominantemente) vs. OSS (Manutenção preventiva sistemática). Impacto: Redução da ociosidade de parques tecnológicos e preservação do erário.
- Regime de Pessoal: Administração Direta (Estatutário / Concurso Público) vs. OSS (CLT / Seleção Pública Simplificada). Impacto: Adequação célere do quadro funcional às sazonalidades do SUS.
- Políticas de Desempenho: Administração Direta (Progressão por tempo/grau) vs. OSS (Avaliação de desempenho e remuneração variável). Impacto: Incentivo contínuo à produtividade das equipes.
- Mecanismos de Controle: Administração Direta (Controle formal de legalidade) vs. OSS (Comissão de Acompanhamento e auditorias do TCE-CE). Impacto: Transparência focada na entrega de resultados.
- Acreditação e Padrões: Administração Direta (Rara adesão a certificações externas) vs. OSS (Busca ativa por Acreditações ACSA, JCI, ONA e Qmentum). Impacto: Garantia de protocolos de segurança em padrão internacional.
6. ESTUDO DE CASO: O ISGH E A EXPANSÃO DA REGIONALIZAÇÃO DA SAÚDE NO CEARÁ
O Ceará converteu-se em referência nacional ao qualificar o Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH), como Organização Social de Saúde. Fundado em 2002, o ISGH transformou o panorama da assistência à saúde no estado, sendo o parceiro estratégico do Governo do Estado na consolidação do plano de regionalização do SUS, em parceria com a Secretaria da Saúde do Estado do Ceará.
A expansão da rede pública hospitalar de alta e média complexidade pelo interior cearense, nas 5 macrorregiões de saúde, democratizou o acesso à saúde e evitou o deslocamento massivo de pacientes para a capital:
- Região Sul: Hospital Regional do Cariri (HRC – Juazeiro do Norte): ONA Nível 3.
- Região Norte: Hospital Regional Norte (HRN – Sobral): ONA Nível 3.
- Região Sertão Central: Hospital Regional do Sertão Central (HRSC – Quixeramobim): Certificação Internacional ACSA (Nível 3 / Excelente).
- Região Litoral Leste: Hospital Regional do Vale do Jaguaribe (HRVJ – Limoeiro do Norte): Assistência oncológica, urgência e cirúrgica.
- Região Litoral Oeste: Hospital Regional de Itapipoca (HRI)):
A conquista do patamar máximo da certificação europeia ACSA (Nível 3) ao lado da ONA 3 em hospitais públicos situados no interior do semiárido cearense é um marco histórico. Ela comprova que a gestão por OSS alia a racionalidade e contenção de custos públicos ao mais alto padrão internacional de segurança assistencial e excelência em processos.
7. GOVERNANÇA, TRANSPARÊNCIA E CONTROLE SOCIAL
Contrariando a falsa premissa de que o modelo representa uma privatização ou ausência de controle, as OSS estão sujeitas a uma multiplicidade de mecanismos de controle e fiscalização:
- Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (SESA;
- Comissão de Avaliação do Contrato de Gestão;
Órgãos de Controle Externo, na esfera Federal e Estadual, como Tribunais de Contas (TCU e TCE) e Controladorias Gerais (CGU e CGE);
- Órgãos Fiscalizadores da lei, na esfera Federal e Estadual, como Ministérios Públicos;
- Portal da Transparência Institucional, com divulgação detalhada de demonstrativos financeiros, balanços patrimoniais, quadros de pessoal e contratos firmados.
8. CONCLUSÃO
O modelo de Organizações Sociais de Saúde demonstra que a inovação na gestão pública é o caminho mais promissor para conciliar a sustentabilidade fiscal com o direito constitucional à saúde. Sob a ótica econômica, o modelo reduz custos operacionais por meio de ganhos de escala e flexibilidade nas compras, maximizando o valor gerado para cada real investido no SUS.
A experiência vanguarda do Ceará, impulsionada pela atuação do ISGH na consolidação dos hospitais regionais (HRC, HRN, HRSC, HRVJ e HRI) atestados por certificações nacionais (ONA) e pelo nível máximo internacional (ACSA), prova que é possível oferecer medicina de alta complexidade com rigor técnico e governança, com recurso público. Para economistas e formuladores de políticas públicas, a gestão por OSS firma-se como um instrumento indispensável de eficiência, equidade e desenvolvimento socioeconômico.