Boletim do Economista – ISSN 3085-9670

Thiago Costa Holanda – Conselheiro do CORECON-CE e professor do IFCE.
INTRODUÇÃO
A transição energética global inaugura uma nova geografia da produção industrial e redefine os vetores de competitividade entre regiões e países. No centro dessa reconfiguração encontra-se o hidrogênio de baixa emissão de carbono, apontado como insumo estratégico para a descarbonização de setores intensivos em energia e para a reorganização das cadeias globais de valor.
Nesse contexto, o Ceará emerge como um dos principais territórios brasileiros que aspiram ocupar posição relevante na economia do hidrogênio verde, ancorado no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) e na articulação institucional em torno de um Hub dedicado à produção e exportação dessa nova molécula energética.
A promessa é ambiciosa, de fato. A combinação de elevada disponibilidade de energia renovável, infraestrutura portuária consolidada, Zona de Processamento de Exportação estruturada e articulação entre governo estadual e setor produtivo projeta o Ceará como potencial plataforma de inserção internacional na economia descarbonizada. A narrativa dominante associa o hidrogênio verde à geração de investimentos bilionários, atração de indústrias e consolidação de um novo ciclo de desenvolvimento regional.
Entretanto, a experiência histórica das economias periféricas recomenda cautela. A simples incorporação de uma nova commodity energética ao portfólio exportador não implica, automaticamente, transformação estrutural.
A questão central que se impõe é de natureza qualitativa e não meramente quantitativa: a cadeia do hidrogênio verde no Ceará será capaz de induzir adensamento produtivo, diversificação industrial e aumento da complexidade econômica, ou se limitará à exportação de energia renovável convertida em amônia e hidrogênio líquido para consumo industrial em economias centrais?
Se a cadeia produtiva se restringir à geração de energia, eletrólise e embarque portuário, o Estado poderá consolidar um enclave exportador de alta intensidade de capital e reduzida difusão tecnológica local. Por outro lado, se o hidrogênio for articulado a segmentos como siderurgia verde, fertilizantes nitrogenados, química de base e metalmecânica, poderá funcionar como alavanca de neoindustrialização regional, promovendo encadeamentos produtivos, aprendizado tecnológico e formação de capacidades industriais.
Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre essa bifurcação estratégica. Busca-se entender se o projeto de hidrogênio verde no Ceará possui os fundamentos econômicos e institucionais necessários para alterar a estrutura produtiva estadual ou se corre o risco de configurar-se como uma “Commodity 2.0”, ambientalmente sofisticada, porém estruturalmente semelhante aos ciclos exportadores tradicionais. A análise concentra-se nos potenciais efeitos sobre a base industrial cearense, nos riscos de especialização primária descarbonizada e nas condições que atores públicos e privados devem observar para que a transição energética se converta em vetor efetivo de desenvolvimento.
CONSTRUÇÃO TEÓRICA
A análise do hidrogênio verde no Ceará exige que o debate seja inserido no marco teórico da transformação estrutural e da economia política do desenvolvimento regional. A literatura sobre cadeias globais de valor demonstra que a posição ocupada por um território na estrutura produtiva internacional é determinante para a geração de renda, difusão tecnológica e dinamismo industrial. Eicke e De Blasio (2022) argumentam que as cadeias do hidrogênio verde tendem a reproduzir assimetrias existentes caso a produção primária seja dissociada da manufatura de maior valor agregado, como eletrolisadores, tecnologias de armazenamento e bens industriais finais.
No caso cearense, o desenho institucional do Hub do Pecém combina infraestrutura portuária competitiva, Zona de Processamento de Exportação e disponibilidade de energia renovável. Tais fatores configuram vantagens locacionais relevantes. Contudo, a literatura do desenvolvimento alerta que vantagens comparativas baseadas exclusivamente em dotação de recursos naturais podem conduzir a estruturas produtivas pouco complexas, sobretudo quando a estratégia está centrada na exportação de insumos energéticos (HAUSMANN; HIDALGO, 2011).
Essa problemática remete diretamente ao conceito de economia de enclave. Segundo a tradição estruturalista latino-americana, enclaves exportadores caracterizam-se por elevada integração com o mercado externo e reduzida articulação com a economia doméstica, apresentando fraca geração de encadeamentos produtivos locais e limitada incorporação tecnológica. A renda é concentrada, os efeitos multiplicadores são restritos e a estrutura produtiva regional permanece pouco diversificada.
O risco, portanto, é que o Hub de Hidrogênio Verde opere como plataforma logística de exportação de amônia verde para a Europa, sem internalização substantiva de cadeias industriais.
Tunn et al. (2024) demonstram que, em diversos países do Sul Global, projetos de hidrogênio verde têm sido estruturados prioritariamente para exportação, reproduzindo padrões de especialização primária sob a lógica do que denominam extrativismo verde. No Ceará, a simples produção e embarque de moléculas energéticas não garante adensamento industrial se os segmentos de maior valor agregado permanecerem externos ao território.
Por outro lado, a literatura sobre política industrial verde aponta que a transição energética oferece janela histórica para upgrading produtivo. Oqubay (2025) sustenta que países em desenvolvimento podem utilizar setores emergentes de energia limpa como plataforma de diversificação industrial, desde que implementem estratégias coordenadas de política pública, conteúdo local, formação de capacidades tecnológicas e articulação com setores industriais estratégicos. Altenburg (2024) reforça que a política industrial contemporânea não deve limitar-se a incentivos horizontais, mas promover a construção deliberada de cadeias produtivas completas.
No Ceará, a possibilidade de evitar a configuração de enclave está associada à integração do hidrogênio verde com segmentos industriais já presentes ou potencialmente atraíveis. A produção de aço verde constitui exemplo emblemático. A utilização do hidrogênio como agente redutor em rotas de redução direta pode permitir a fabricação de produtos siderúrgicos de baixo carbono, agregando valor ao minério de ferro nacional e estimulando a instalação de unidades industriais na Zona de Processamento de Exportação. Eicke e De Blasio (2022) indicam que a captura de valor na cadeia do hidrogênio ocorre majoritariamente nas etapas de transformação industrial, e não na mera produção da molécula.
Outro vetor relevante é a cadeia de fertilizantes nitrogenados. O Brasil importa parcela majoritária de sua demanda por fertilizantes, configurando vulnerabilidade estratégica. A produção de amônia verde no Ceará, articulada a uma política nacional de substituição competitiva de importações, poderia reduzir o déficit comercial e consolidar uma cadeia química de maior complexidade.
A materialização desses encadeamentos depende de condições institucionais e estratégicas específicas. Em primeiro lugar, é necessária coordenação entre governo estadual, governo federal, setor privado e instituições de pesquisa. Em segundo lugar, políticas de financiamento e garantias de demanda são fundamentais para mitigar riscos tecnológicos e de mercado, sobretudo em fase inicial de maturação do setor. Em terceiro lugar, deve-se observar a necessidade de formação de capital humano especializado, capaz de operar tecnologias avançadas de eletrólise, processos químicos e engenharia industrial.
Adicionalmente, os atores públicos e privados devem avaliar cuidadosamente a governança contratual dos projetos. Estruturas excessivamente orientadas por contratos de exportação de longo prazo podem cristalizar a função primária do território como fornecedor energético externo. A definição de cláusulas de conteúdo local, metas de transferência tecnológica e compromissos de instalação industrial torna-se elemento decisivo para evitar a configuração de enclave.
Não se pode ignorar também os riscos socioambientais associados à expansão em larga escala do hidrogênio verde. Tunn et al. (2024) alertam para possíveis conflitos relacionados ao uso intensivo de água e ocupação territorial em países exportadores. Embora o Ceará possua vantagens em energia eólica e solar, a gestão hídrica deve integrar o planejamento para evitar externalidades que comprometam legitimidade social do projeto.
Sob a perspectiva da complexidade econômica, a questão central reside em saber se o hidrogênio verde permitirá ao Ceará transitar para atividades mais sofisticadas no espaço produtivo. Hausmann e Hidalgo (2011) demonstram que economias que conseguem expandir para produtos tecnologicamente relacionados, mas de maior complexidade, experimentam crescimento mais robusto e sustentável. A cadeia do hidrogênio pode funcionar como ponte para setores industriais avançados, desde que não se limite à exportação de insumos primários descarbonizados.
Portanto, o dilema cearense não é tecnológico, mas estrutural. A infraestrutura portuária e a disponibilidade de energia renovável criam condições necessárias, porém não suficientes, para transformação produtiva. A diferença entre um ciclo virtuoso de neoindustrialização e a consolidação de uma commodity verde dependerá da densidade dos encadeamentos locais, da internalização de etapas industriais estratégicas e da capacidade de coordenação institucional de longo prazo.
CONCLUSÃO
O Hub de Hidrogênio Verde no Ceará somente se converterá em vetor efetivo de desenvolvimento se estiver inserido em uma estratégia explícita de transformação estrutural. Isso implica priorizar o adensamento produtivo, a internalização de etapas industriais de maior valor agregado e a construção de capacidades tecnológicas locais.
A consolidação de cadeias associadas, como fertilizantes nitrogenados, siderurgia verde, química de base e indústria metalmecânica, é condição essencial para que o Estado amplie sua complexidade econômica e gere efeitos multiplicadores sobre emprego, renda e inovação. Sem essa integração, o projeto tende a operar como plataforma exportadora intensiva em capital e com limitada difusão produtiva regional.
Os cuidados necessários envolvem coordenação institucional (de longo prazo), desenho adequado de instrumentos de política industrial e governança contratual estratégica.
É fundamental que contratos e incentivos estejam condicionados à instalação de unidades industriais, à transferência tecnológica e à formação de capital humano qualificado. A política pública deve equilibrar inserção internacional com fortalecimento do mercado interno, evitando dependência excessiva de demanda externa.
Adicionalmente, a sustentabilidade hídrica e territorial precisa ser incorporada ao planejamento, garantindo legitimidade social e estabilidade regulatória ao empreendimento.
O maior desafio, contudo, é de natureza estrutural e política: evitar que a lógica de curto prazo da atração de investimentos e da geração imediata de exportações prevaleça sobre uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.
A tentação de consolidar rapidamente o Ceará como exportador competitivo de amônia verde pode obscurecer a necessidade mais complexa de construir capacidades industriais próprias. A diferença entre um enclave exportador descarbonizado e um salto qualitativo de desenvolvimento dependerá da capacidade do Estado e do setor produtivo de coordenar investimentos, compartilhar riscos e perseguir, de forma deliberada, a elevação do padrão produtivo regional.
REFERÊNCIAS
ALTENBURG, T. Industrial policy trends in Germany. CEPAL, 2024.
EICKE, L.; DE BLASIO, N. Green hydrogen value chains in the industrial sector: geopolitical and market implications. Energy Research and Social Science, v. 89, 2022.
HAUSMANN, R.; HIDALGO, C. A. The network structure of economic output. Journal of Economic Growth, v. 16, n. 4, p. 309-342, 2011.
OQUBAY, A. Green industrial policy and industrialisation in Africa. In: Industrial Policy and Economic Development. Springer, 2025.
TUNN, J. et al. Green hydrogen transitions deepen socioecological risks and extractivist patterns: evidence from 28 prospective exporting countries in the Global South. Energy Research and Social Science, 2024.