Boletim do Economista – ISSN 3085-9670

Eduardo Fontenele – Economista, Professor Titular da UFC, Coordenador do NEMA – Núcleo de Estudos em Economia do Mar
Falar de Economia Azul no Ceará é falar de uma vocação econômica que acompanha a própria formação do Estado, mas que ainda precisa ser plenamente reconhecida, mensurada e transformada em estratégia de desenvolvimento. A extensa faixa litorânea, a tradição pesqueira, a aquicultura, o turismo, as atividades portuárias, o transporte marítimo, a energia e os serviços revelam uma base produtiva diversificada e fortemente conectada ao mar e aos recursos aquáticos. O desafio, portanto, não está apenas em reconhecer que o mar gera riqueza, mas em compreender como essa riqueza é criada, onde se concentra, como se distribui e de que maneira pode crescer sem comprometer a base ambiental e social que a sustenta.
Economia do Mar e Economia Azul, entretanto, não são expressões inteiramente equivalentes. A primeira permite identificar e mensurar atividades econômicas relacionadas direta ou indiretamente ao ambiente marinho e costeiro. A segunda acrescenta uma exigência decisiva: essas atividades devem ser economicamente eficientes, socialmente inclusivas e ambientalmente sustentáveis. Não basta, portanto, estar no litoral ou utilizar um recurso marinho para que uma atividade possa ser considerada, em sentidosubstantivo, parte de uma estratégia azul. É preciso avaliar a qualidade do crescimento que produz, sua capacidade de gerar valor local e seus efeitos sobre pessoas, territórios e ecossistemas.
MENSURAR PARA CONHECER, CONHECER PARA DECIDIR
É nesse ponto que o trabalho dos economistas se torna central. O primeiro passo de qualquer política econômica consistente é conhecer o objeto sobre o qual se pretende atuar. Sem dados, conceitos bem delimitados e indicadores confiáveis, a Economia Azul corre o risco de permanecer como uma expressão atraente, presente em discursos e planos estratégicos, mas pouco operacional para orientar investimentos e políticas públicas. A contribuição das Ciências Econômicas começa pela mensuração: definir setores, organizar informações, construir contas, estimar valor agregado, analisar emprego, renda, produtividade, comércio, encadeamentos produtivos e impactos territoriais.
A experiência de mensuração da Economia do Mar no Ceará mostrou que não se trata de um setor isolado, mas de um complexo de atividades interconectadas. Pesca, aquicultura, turismo, alimentação, transporte, atividades portuárias, construção e manutenção de embarcações e diferentes serviços integram uma rede econômica mais ampla (Sancho, Ribeiro e Fontenele, 2023). Essa perspectiva é importante porque impede uma leitura excessivamente setorial. O mar funciona como base de um sistema econômico no qual produção, serviços, infraestrutura, mercados e território se relacionam continuamente.
Há ainda uma questão particularmente relevante para setores tradicionais: aquilo que não é adequadamente medido tende a aparecer como menos importante do que realmente é. A pesca artesanal ilustra bem esse problema. Sua dispersão territorial, a informalidade de parte das relações produtivas e comerciais e a insuficiência de sistemas contínuos de monitoramento dificultam a construção de estatísticas consistentes. A ausência de dados, contudo, não significa ausência de valor. Muitas vezes significa apenas ausência de capacidade institucional para reconhecê-lo. Um sistema permanente de monitoramento deve, portanto, ser entendido como parte da infraestrutura necessária ao desenvolvimento, e não como simples procedimento burocrático (Sancho e Fontenele, 2025).
CADEIAS DE VALOR E QUALIDADE DO CRESCIMENTO
A análise de cadeias de valor oferece um passo adicional. Em vez de perguntar apenas quanto um setor produz, procura compreender como o valor é criado e distribuído ao longo das etapas que ligam insumos, produção, transformação, distribuição e consumo. Essa abordagem permite separar o valor bruto da produção da riqueza efetivamente criada, avaliar a participação de fornecedores locais e externos e identificar efeitos diretos e indiretos sobre o restante da economia. É justamente aí que uma leitura econômica mais sofisticada começa a alterar a interpretação do desenvolvimento.
A aplicação dessa lógica à pesca e à aquicultura no Ceará mostra por que a distinção entre produção e geração de valor é importante. Atividades com estruturas de custos diferentes produzem efeitos distintos sobre a economia. Algumas geram elevado valor diretamente na atividade principal; outras mobilizam maior volume de insumos e serviços e, por essa razão, podem criar efeitos indiretos mais intensos sobre fornecedores, logística, energia e trabalho. A questão relevante para a política econômica não é definir qual atividade é, em abstrato, melhor, mas compreender quais relações produtivas cada uma cria e como elas podem ser fortalecidas (Fontenele et al., 2025).
Produzir mais, portanto, não significa necessariamente desenvolver mais. Uma estratégia de Economia Azul precisa perguntar quanto da riqueza permanece no Ceará, quanto sai na aquisição de insumos e serviços externos, como a renda é distribuída entre trabalhadores, empresas e governo e quais segmentos da cadeia oferecem maior capacidade de agregação de valor. Essa abordagem desloca o debate do crescimento quantitativo para a qualidade econômica do crescimento.
O VCA4D DA GUINÉ-BISSAU COMO REFERÊNCIA PARA A DECISÃO PÚBLICA
Um exemplo particularmente útil para essa reflexão vem do estudo da cadeia de valor das pescas da Guiné-Bissau realizado em 2025 no âmbito do programa Value Chain Analysis for Development, VCA4D, da União Europeia. A relevância do exemplo não está em comparar diretamente a economia guineense com a cearense, mas em observar como uma metodologia de análise econômica pode organizar questões fundamentais para a decisão pública. O VCA4D parte de quatro perguntas: qual é a contribuição da cadeia para o crescimento econômico; esse crescimento é inclusivo; a cadeia é socialmente sustentável; e é ambientalmente sustentável? (Fontenele et al., 2025).
Para responder a essas perguntas, o estudo integrou análise funcional, econômica, social e ambiental. A análise funcional mapeou atores, fluxos, mercados e formas de organização. A econômica examinou valor agregado, desempenho financeiro, emprego, distribuição de renda, efeitos na economia e competitividade. A social observou condições de trabalho, gênero, segurança alimentar e capital social. A ambiental avaliou os impactos da cadeia e o uso dos recursos. O interesse dessa estrutura é justamente não permitir que o crescimento econômico seja analisado de forma separada de sua inclusão e de sua sustentabilidade.
O caso da Guiné-Bissau mostrou também por que olhar apenas para a captura é insuficiente. Transformação, conservação, comercialização e logística são elos capazes de reter valor, gerar renda e ampliar oportunidades econômicas. Quando faltam gelo, armazenamento, energia ou transporte adequado, o problema não é apenas a perda física do pescado. Há redução do poder de negociação, venda precipitada, menor capacidade de processamento e menor retenção de riqueza nas comunidades. Do ponto de vista econômico, infraestrutura de pós-captura passa a ser entendida como instrumento de agregação de valor e de desenvolvimento territorial.
O VCA4D também evidencia a necessidade de territorializar a análise. Custos, infraestrutura, acesso a mercados e organização produtiva variam entre regiões, e políticas uniformes podem gerar resultados muito diferentes. Uma estratégia de Economia Azul para o Ceará deve reconhecer essa heterogeneidade, comparando municípios e regiões segundo suas especializações, capacidades e vulnerabilidades. Nesse sentido, o valor do exemplo guineense está menos nos números obtidos e mais no método: diagnosticar, comparar, identificar gargalos e converter evidências em prioridades de política pública.
DO PIB DO MAR A UMA CONTA ECONÔMICA DA ECONOMIA AZUL
Há, portanto, uma agenda decisiva de políticas públicas: avançar na construção de uma metodologia para calcular o PIB do Mar no Ceará. A mensuração da Economia do Mar já mostrou que existe uma base ampla de atividades relacionadas direta ou indiretamente ao ambiente marinho e costeiro, mas o passo seguinte é transformar essa identificação em uma conta econômica regular, comparável e atualizável. O próprio debate nacional tem enfatizado a necessidade de mensurar e monitorar o PIB do Mar para melhorar a qualidade da informação econômica e ambiental disponível aos formuladores de políticas (Andrade et al., 2022).
Um PIB do Mar é necessário porque fornece escala e visibilidade, mas não deveria ser o ponto final. Uma conta econômica periódica da Economia Azul poderia combinar informações empresariais, produção, emprego, massa salarial, valor agregado, comércio, investimentos, origem dos insumos, efeitos indiretos e distribuição de renda. Quando possível, deveria também dialogar com indicadores ambientais e territoriais. O objetivo seria permitir que a economia associada ao mar deixasse de ser observada por fotografias ocasionais e passasse a ser acompanhada como componente permanente da estratégia de desenvolvimento estadual.
Esse avanço metodológico melhoraria a qualidade das escolhas. Em vez de apoiar setores apenas porque parecem promissores, seria possível comparar alternativas com base em evidências: quais atividades geram maior valor agregado local? Quais apresentam maior efeito multiplicador? Onde há dependência excessiva de insumos adquiridos fora do Estado? Quais territórios são mais especializados e vulneráveis a choques? Onde investimentos em infraestrutura, qualificação, inovação ou tecnologia podem produzir maior retorno econômico e social? Essas são perguntas tipicamente econômicas e deveriam ocupar posição central em uma estratégia de Economia Azul. Isso permite também abandonar a lógica de escolher antecipadamente setores ‘vencedores’: a prioridade passa a ser identificar, por evidências, onde o Ceará consegue combinar competitividade, geração de valor local, inclusão produtiva e preservação de seus ativos naturais.
A mesma lógica precisa orientar a avaliação de novos investimentos. Potencial natural não é sinônimo de viabilidade econômica, e viabilidade privada não é sinônimo de benefício coletivo. A existência de vento, recursos pesqueiros, paisagens costeiras ou posição geográfica favorável não garante que qualquer empreendimento produzirá desenvolvimento. Cabe à análise econômica examinar custos, alternativas, riscos, efeitos distributivos, encadeamentos e oportunidades de geração de fornecedores locais. A questão fundamental continua sendo: quanto valor o investimento cria e quanto desse valor permanece no território?
UMA ECONOMIA AZUL QUE NÃO TERMINA NA LINHA DA COSTA
Também é necessário evitar uma visão estreita que reduza a Economia Azul ao litoral. A aquicultura e a pesca continental demonstram que os efeitos econômicos relacionados aos recursos aquáticos alcançam o interior do Ceará. Cadeias de peixes e camarões mobilizam fornecedores, trabalho, energia, transporte, processamento e comércio muito além da faixa costeira. Uma estratégia estadual deve, portanto, articular litoral e interior, mar e águas continentais, produção e pós-produção.
A perspectiva territorial também ajuda a questionar políticas excessivamente uniformes. Municípios costeiros e regiões interiores possuem estruturas produtivas, capacidades institucionais e níveis de especialização distintos. A análise econômica regional pode identificar dependências, gargalos e oportunidades de diversificação, permitindo que instrumentos de política sejam adaptados às condições de cada território, em vez de aplicados de maneira indiferenciada.
ECONOMIA, AMBIENTE E O PAPEL DOS ECONOMISTAS
A Economia Azul oferece ainda uma oportunidade para aproximar economia convencional e economia ambiental. Recursos naturais não podem ser tratados como se estivessem fora das contas ou como se sua degradação fosse um efeito externo irrelevante. A qualidade dos ecossistemas influencia produtividade pesqueira, turismo, proteção costeira, segurança alimentar e atratividade de investimentos. Preservar esses ativos não é um objetivo externo à economia; é preservar parte do capital que sustenta a geração futura de valor (Fenichel et al., 2020).
É justamente nesse espaço que os economistas devem assumir protagonismo. Seu papel não é substituir engenheiros, biólogos, oceanógrafos, pescadores, aquicultores, empresários ou gestores públicos, mas integrar essas diferentes dimensões em uma leitura capaz de comparar alternativas e apoiar escolhas. Medir valor, compreender cadeias, avaliar investimentos, estimar efeitos diretos e indiretos, analisar distribuição, mensurar dependências externas e apoiar o desenho de políticas públicas são contribuições próprias das Ciências Econômicas.
Os economistas podem, assim, cumprir funções estratégicas na agenda azul do Ceará: tornar a Economia Azul mensurável; avaliar cadeias e projetos; identificar onde o valor é criado e perdido; analisar impactos territoriais e distributivos; e contribuir para a construção de instrumentos de política mais eficientes. Para isso, a formação profissional precisa dialogar com contabilidade regional, matrizes de insumo-produto, análise de cadeias de valor, economia ambiental, avaliação de projetos e políticas públicas, sem perder a capacidade de trabalhar de forma interdisciplinar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Economia Azul será verdadeiramente estratégica para o Ceará quando deixar de ser apenas uma soma de setores ligados ao mar e passar a constituir uma política de desenvolvimento baseada em evidências. Isso significa produzir mais valor com os recursos disponíveis, reter maior parcela dessa riqueza no território, ampliar oportunidades de trabalho e renda e preservar os ecossistemas que sustentam essas atividades.
A experiência acumulada no Ceará já aponta uma direção: medir a Economia do Mar, construir sistemas permanentes de monitoramento, aprofundar a análise de cadeias de valor e articular produção, pós-produção e território. O exemplo do VCA4D da Guiné-Bissau reforça essa lógica ao mostrar como crescimento, inclusão e sustentabilidade podem ser analisados de forma integrada e convertidos em recomendações concretas de política pública.
O próximo passo é transformar essa lógica em capacidade institucional permanente. A construção de um PIB do Mar, articulado a uma conta econômica da Economia Azul e a instrumentos de análise territorial e de cadeias de valor, permitiria acompanhar de forma sistemática onde a riqueza é gerada, como se distribui entre atividades e territórios e em que medida permanece na economia cearense. O Ceará já reúne ativos naturais, cadeias produtivas, conhecimento científico e capital humano suficientes para avançar nessa direção. O desafio, portanto, não é apenas reconhecer esse potencial, mas convertê-lo em uma estratégia de desenvolvimento baseada em evidências, capaz de orientar investimentos, políticas públicas e prioridades territoriais. Nesse processo, os economistas têm papel central na mensuração, avaliação e comparação de alternativas, contribuindo para que a Economia Azul se consolide como vetor de desenvolvimento econômico, social e ambientalmente sustentável no Estado.
REFERÊNCIAS
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