Boletim do Economista – ISSN 3085-9670

Lauro Chaves Neto – Professor Adjunto da UECE e Assessor Econômico da FIEC, PHD em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona e Pós Doutor em Estratégia Empresarial pela University of Massachusetts. Foi Conselheiro Federal de Economia, Presidente do Conselho Regional de Economia, do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças e da Academia Cearense de Economia.
A Sustentabilidade historicamente sempre foi vista com uma perspectiva macroeconômica, apenas a partir da cultura ESG que ela passa a ser abordada com uma visão micro, onde o setor produtivo passa a ter protagonismo central na construção de um mundo melhor, além de descobrir que a disseminação dessas práticas produz um impacto econômico positivo para a sociedade e tende a gerar resultados financeiros para as empresas que a praticam.
O desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz as necessidades atuais sem comprometer a habilidade das futuras gerações de atender suas. Esse conceito foi desenvolvido pela ONU, na década de 70. O tema ESG – Environment, Social and Governance – hoje, é um dos focos dos investidores internacionais na análise de crédito. Avalia a sustentabilidade e o impacto social de um negócio, aspectos determinantes para o valor das empresas.
A cultura ESG só existe se for sistêmica em todas as áreas e práticas das organizações. O Setor Produtivo precisa implantar a ética e a transparência na sua governança, cuidar do meio ambiente desde a seleção dos seus fornecedores até a gestão dos resíduos, e cuidar das pessoas, não só de acionistas e colaboradores, assim como atuar pro ativamente na transformação da sociedade. Apenas nações praticando a sustentabilidade não é o suficiente.
Dos três eixos ESG, a governança é a vertente mais familiar no meio empresarial, a área ambiental também ganhou adeptos com iniciativas implantadas, porém a área social é onde ocorrem menos ações, predominando a ideia de que essa é uma responsabilidade essencialmente do poder público ou de caráter meramente assistencial.
O G de Governança no ESG representa o alicerce sobre o qual se sustentam as dimensões ambiental e social, pois trata da forma como as organizações são dirigidas, monitoradas e responsabilizadas por suas decisões. Uma governança sólida envolve estruturas claras de poder e controle, conselhos de administração atuantes e independentes, transparência na divulgação de informações, ética nos negócios, combate efetivo à corrupção e alinhamento entre a estratégia corporativa e os interesses de longo prazo de acionistas, colaboradores, clientes e da sociedade.
No contexto atual, marcado por maior escrutínio público, avanço regulatório e crescente demanda por responsabilidade corporativa, o G deixa de ser apenas um requisito formal e passa a ser um fator estratégico de competitividade, capaz de reduzir riscos, atrair investimentos, fortalecer a reputação institucional e aumentar a resiliência das organizações frente a crises. Empresas com boas práticas de governança tendem a apresentar maior previsibilidade de resultados, melhor capacidade de adaptação a mudanças econômicas e tecnológicas e maior confiança por parte do mercado, demonstrando que o G do ESG não é um custo adicional, mas um investimento essencial para a perenidade, a credibilidade e a criação de valor sustentável no longo prazo.
O E de Ambiental no ESG refere-se ao conjunto de práticas e estratégias adotadas pelas organizações para gerir seus impactos sobre o meio ambiente e contribuir para a sustentabilidade dos ecossistemas, indo muito além do simples cumprimento de normas legais. Ele envolve a gestão eficiente de recursos naturais, como água e energia, a redução das emissões de gases de efeito estufa, o controle e a destinação adequada de resíduos, a adoção de processos produtivos mais limpos, o uso de fontes renováveis e a inovação voltada à economia circular.
Em um cenário de mudanças climáticas, escassez de recursos e crescente pressão de consumidores, investidores e reguladores, o pilar ambiental assume papel central na estratégia empresarial, influenciando diretamente a competitividade e a continuidade dos negócios. Empresas que incorporam o E do ESG de forma consistente tendem a reduzir custos operacionais no médio e longo prazo, mitigar riscos ambientais e reputacionais, acessar novos mercados e fontes de financiamento sustentável, além de fortalecer sua imagem institucional. Assim, o compromisso ambiental deixa de ser apenas uma agenda de responsabilidade socioambiental e passa a ser um vetor estratégico de criação de valor, inovação e resiliência, alinhando desempenho econômico à preservação ambiental e às expectativas de uma sociedade cada vez mais consciente e exigente.
O S de Social no ESG diz respeito à forma como as organizações se relacionam com as pessoas e com a sociedade, abrangendo práticas que impactam diretamente colaboradores, clientes, fornecedores e as comunidades onde atuam. Esse pilar envolve temas como condições dignas de trabalho, saúde e segurança ocupacional, diversidade, equidade e inclusão, respeito aos direitos humanos, desenvolvimento de talentos, diálogo com stakeholders, responsabilidade na cadeia de suprimentos e contribuição para o desenvolvimento socioeconômico local.
Em um contexto de maior conscientização social e amplificação das vozes por meio das redes e da mídia, o desempenho social das empresas tornou-se um fator crítico para a reputação, a atração e retenção de talentos e a fidelização de clientes e investidores. Organizações que integram o S do ESG de forma estratégica tendem a construir relações de confiança mais sólidas, reduzir conflitos e riscos trabalhistas, aumentar o engajamento interno e fortalecer seu papel como agentes de transformação social. Assim, o pilar social deixa de ser visto apenas como filantropia ou ação pontual e passa a ser parte essencial da estratégia corporativa, contribuindo para a criação de valor sustentável, para a legitimidade das empresas e para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e resiliente.
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU deviam ser o guia do “S”, porém o seu primeiro enunciado, o de erradicação da pobreza, é tratado subliminarmente por grande parte do setor produtivo e quase nenhum fundo de investimento o menciona em suas políticas.
O “S” pode e deve receber maior atenção para a obtenção dos resultados esperados da cultura ESG, para isso é possível separar as iniciativas entre aquelas de caráter interno ou externo às organizações. Externamente é possível usar a expertise para ajudar na elaboração de iniciativas públicas de combate à pobreza e na redução das desigualdades, incluir no seu mix produtos capazes de melhorar a qualidade de vida dos mais vulneráveis e ainda atuar diretamente em projetos sociais. Internamente, deve-se melhorar as condições e as relações de trabalho, estimular as políticas de inclusão e diversidade dentro e fora das empresas, garantir a privacidade e segurança de dados, promover impacto positivo no seu entorno, além de respeitar os direitos humanos.
O ESG segue na sua crescente mobilização de adeptos. Algumas práticas são rotuladas de ESG e não conseguem agregar valor ao negócio, essas tendem a ser abandonadas ao longo do tempo; já outras, possuem um viés ainda mais danoso, o de se divulgar ações que não possuem conexão com a realidade.
Uma empresa que tenta mostrar que faz, pelo meio ambiente, mais do que aquilo que realmente executa, poderia ser descrito como propaganda enganosa, porém o vocabulário corporativo prefere usar “greenwashing”, nesses casos. Já quando são “falsas” informações sobre iniciativas sociais é comum se usar o termo “socialwashing”.
Vale reforçar que ESG não é um produto ou serviço que a empresa compra de um fornecedor, é uma mudança na cultura organizacional, uma verdadeira transformação no mindset das lideranças.
Um dos erros que mais se repete no mundo corporativo é divulgar iniciativas sustentáveis, social ou ambiental, que foram planejadas e ainda não colocadas em práticas, ao invés de focar a propaganda nos resultados efetivos de iniciativas exitosas.
O impacto do greenwashing ou do socialwashing extrapola a reputação da organização que o praticou, a ação desvirtua a própria natureza das ações sustentáveis e tende a contaminar a confiança da sociedade em ações ESG. As boas práticas devem continuamente ser validadas, é recomendável que os especialistas em ESG participem da concepção e da aprovação das campanhas, reduzindo o risco de alguma distorção.
Em um passado recente, poucos conheciam algo sobre ESG, o tema avançou nas pautas empresariais e governamentais, embora que de forma ainda superficial. Para o bem ou para o mal, fundos de investimentos, empresas públicas e privadas, ONG´s passaram a se denominar verdes, sustentáveis e com o propósito em questões sociais.
Reforçando o “para o bem ou para o mal”, o ESG deixou de ser uma agenda periférica e passou a ocupar o centro das decisões estratégicas das organizações, influenciando investimentos, políticas públicas, reputação corporativa e a própria percepção de valor no mercado. Para o bem, porque induz empresas a incorporarem critérios ambientais, sociais e de governança mais responsáveis, estimulando transparência, sustentabilidade e compromisso com o longo prazo. Para o mal, porque sua adoção nem sempre ocorre de forma consistente, abrindo espaço para práticas superficiais, discursos vazios ou o chamado greenwashing, que comprometem a credibilidade do conceito.
Ainda assim, independentemente das controvérsias, o ESG tornou-se um novo parâmetro de avaliação empresarial, redefinindo expectativas e exigindo das organizações uma postura mais consciente, estratégica e alinhada às demandas de uma sociedade cada vez mais atenta ao impacto das atividades econômicas.
Se por um lado o aumento da preocupação com o tema é salutar, por outro a dispersão no mercado abriu a oportunidade para o greenwashing e socialwashing, semelhante a uma embalagem para o mercado.
Vincular as questões ambientais, sociais e de governança à cadeia de valor da organização é uma estratégia de negócios que irá contribuir para a sustentabilidade da empresa, exatamente o contrário dos resultados maléficos do greenwashing e socialwashing.