Reajuste de ICMS em 2026: Impactos, Críticas e Alternativas – Eldair Melo

Eldair Melo – Professor, Mestre em Economia (CAEN/ UFC), Conselheiro Corecon-CE presidindo a Comissão de Assuntos Econômicos e Legislativos.

O aumento do ICMS sobre a gasolina, diesel e gás de cozinha, previsto para janeiro de 2026, já foi analisado em artigo anterior (Impactos do Reajuste de ICMS sobre combustíveis em 2026: Cenários, Probabilidades e Crítica à Política Fiscal), no qual destacamos três cenários prováveis para a economia brasileira. Retomando essa análise, é importante aprofundar a reflexão sobre as implicações dessa política e seus desdobramentos para a sociedade, pois, trata-se de um movimento que, embora assegure maior previsibilidade à arrecadação estadual, recai sobre o consumo popular e sobre setores estratégicos da economia.

Ao vincularmos este reajuste à discussão probabilística de cenários, notamos que o governo estadual busca reforçar suas receitas por meio de um modelo de tributação de base fixa, menos vulnerável às oscilações de preços internacionais. No entanto, essa política evidencia um dilema: enquanto fortalece a capacidade fiscal dos Estados, fragiliza o poder de compra das famílias e aumenta os custos operacionais das empresas. Em outras palavras, transfere o peso da responsabilidade fiscal para o consumidor final.

A crítica central recai sobre a falta de equilíbrio na formulação dessa política tributária. Em vez de explorar caminhos de maior eficiência na gestão dos gastos públicos ou mecanismos de incentivo à produção e inovação, a escolha recaiu sobre a elevação de impostos em setores essenciais e sensíveis as oscilações de preços. Esse comportamento revela uma dependência estrutural do Estado em relação a tributação sobre consumo, o que perpetua desigualdades sociais e regionais.

Assim, ao ampliarmos o olhar para além da arrecadação, percebemos que o reajuste do ICMS não é apenas uma medida fiscal, mas também uma decisão política que impacta a dinâmica social e econômica do país. A curto prazo, pode gerar alívio para os cofres públicos; a médio e longo prazo, tende a aumentar o custo de vida, reduzir competitividade das empresas e ampliar pressões inflacionárias.

Revisitando os três cenários apresentados anteriormente, é possível acrescentar novas reflexões. O cenário moderado, de inflação pontual e absorção parcial do impacto, só se sustentará se houver contrapartidas do governo federal em subsídios e políticas compensatórias. Caso contrário, sua probabilidade se reduz ainda mais.

O cenário intermediário, embora mais provável que o cenário moderado e menos provável do que o cenário extremo, não deve ser descartado. Ele mostra-se alinhado ao histórico recente do Brasil: repasses parciais ao consumidor acompanhados por uma pressão inflacionária que, embora não explosiva, reduz o poder aquisitivo das famílias e gera instabilidade para os pequenos negócios. Esse cenário representa, em essência, o efeito colateral de uma política que prioriza arrecadação em detrimento do crescimento sustentável.

Alguns exemplos reais de política fiscal fortificam tal alinhamento como demonstrado no quadro 1.

Quadro 1 – Histórico de Comportamento Intermediário na Política Fiscal

Política FiscalAçãoImpactoResultado
Redução temporária do ICMS sobre combustíveis em 2022Ano eleitoral, Lei Complementar no. 194/22 limitou as alíquotas de ICMS de gasolina, diesel e energia elétrica.Queda nos preços, de forma parcial e temporária, pois os Estados perderam arrecadação e compensaram parte via ajustes em outros tributos e redução de repasses.Inflação desacelerou momentaneamente, mas a recomposição tributária posterior trouxe pressão de volta aos preços, sem ganhos sustentáveis ao poder de compra.
Política de Controle parcial sobre os preços da Petrobrás em 2018 (Governo Temer)Intervenção do governo no preço do diesel após greve dos caminhoneiros oferecendo subsídios e compensações às distribuidoras.Redução a alta imediata no transporte, o custo fiscal foi elevado e os preços voltaram a subir gradualmente com a recomposição do mercado.Repasse parcial, com inflação controlada apenas no curto prazo, mas sem solução estrutural.
Isenção Parcial de tributos federais sobre combustíveis em 2022-2023Governo Federal zerou temporariamente as alíquotas de PIS/ Cofins e Cide sobre gasolina e etanol.Alívio imediato nos preços ao consumidor, mas sem atacar a volatilidade internacional do petróleo nem a fragilidade fiscal.Efeito temporário, inflação de combustíveis contida por meses, mas perda de arrecadação e posterior recomposição geraram instabilidade.
Congelamento de ICMS sobre combustíveis pelos Estados (2021-2022)Governadores, sobre pressão política, decidiram congelar a base de cálculo do ICMS sobre gasolina e diesel por 90 dias.Freio parcial no aumento de preços, mas sem eliminar a pressão inflacionária, já que o câmbio desvalorizado e o petróleo em alta continuavam pressionando.Consumidores sentiram apenas um alívio moderado, com impacto limitado no orçamento familiar e na inflação.

Fonte: Elaborado pelo Autor tendo como referência Lei Complementar nº. 194/ 2022, PLP 18/ 2022, Decretos 9.392/ 2018 e 9.403/ 2018 e Crise do Diesel em 2018 (greve dos caminhoneiros).

Assim, o governo opta por medidas paliativas de contenção parcial, que aliviam temporariamente a inflação, mas geram distorções fiscais, perda de arrecadação e instabilidade para famílias e empresas, especialmente, pequenos negócios.

Já o cenário extremo, considerado o mais provável, mostra a vulnerabilidade da economia a choques externos. Basta uma combinação adversa de choques externos, como aumento do preço do petróleo e desvalorização cambial para que os custos internos se elevem em proporções ainda maiores. Nessa hipótese, a política de aumento do ICMS funcionaria como catalisador agravando as tensões sociais e econômicas.

Como por exemplo, o colapso e recuperação dos preços do petróleo (2020-2021) em resposta fiscal de emergência devido a pandemia Covid-19 com implemento de amplo pacote fiscal (auxílio emergencial, desonerações e postergações tributárias) para proteger renda e demanda que implicou em redução de receitas e efeitos distributivos de renda, sem atuarem diretamente sobre a volatilidade do preço internacional do petróleo tendo com resultado um amortecimento social com pressão orçamentária e efeitos inflacionários quando os preços do petróleo subiram de novo.

Outro exemplo de choque externo foi a guerra Rússia-Ucrânia (fevereiro/ março de 2022) com alta do brent mais desvalorização cambial elevando os preços internos dos combustíveis que apesar das intervenções fiscais-tributárias (LC 192/ 2022 e correlatas) e ajustes, zeramentos e congelamentos em vários Estados de alíquotas de ICMS, PIS/Cofins, CIDE para tentar conter preços no curto prazo trouxeram alívio pontual mas implicaram renúncia de receitas e necessidades de ajustes posteriores.

E, por fim a política de ajustes de preços da Petrobrás em 2022-23 vinculados à paridade / importy parity com respostas governamentais e mudança de política em 2023.

Em todos os cenários, a crítica permanece: ao invés de construir um ambiente de estímulo à produtividade e eficiência, os Estados optaram por transferir o peso da arrecadação para bens essenciais. Esse comportamento evidencia a falta de um projeto estratégico de médio e longo prazo que integre a política fiscal com a política de desenvolvimento econômico.

Diante desse cenário, famílias precisam reforçar ainda mais seus mecanismos de proteção financeira. A elaboração de orçamentos detalhados, a criação e manutenção de reserva de emergência, a redução de despesas supérfluas e a diversificação das fontes de renda tornam-se medidas indispensáveis. Preparar-se significa, em última instância, garantir resiliência frente a um ambiente econômico mais instável.

Para as empresas, especialmente micro, pequenas e médias, o desafio será equilibrar aumento de custos e manutenção de competitividade. Estratégias de eficiência operacional, revisão de contratos logísticos, renegociação com fornecedores e inovação tecnológica podem reduzir os efeitos de reajustes. Além disso, uma comunicação clara e transparente com clientes ajudará a mitigar resistências em relação a possíveis aumentos de preços.

Em termos de planejamento prático, quatro ações são recomendadas: (1) para famílias, manter disciplina no orçamento, fortalecer a reserva financeira, priorizar o pagamento de dívidas caras e buscar alternativas de renda. (2) para empresas, mapear custos críticos, investir em tecnologia e energia renovável, diversificar fornecedores e garantir capital de giro suficiente. Essas medidas não anulam o impacto, mas aumentam a capacidade de adaptação.

Conclui-se, portanto, que o reajuste de ICMS em 2026 revela mais do que uma decisão fiscal: reflete um padrão de governança que privilegia a arrecadação imediata em detrimento do equilíbrio social e econômico. O Brasil precisa repensar sua matriz tributária, buscando soluções que promovam justiça fiscal, estimulem a produtividade e fortaleçam a competitividade. Somente assim, será possível construir um ambiente sustentável para famílias e para a própria arrecadação pública.

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