
Pedro Felipe Pinheiro Brito – Advogado, acadêmico em Economia, MBA em Gestão Empresarial, MBA em Mercado Financeiro
Tive a grande oportunidade de vida em ter tempo para estudar coisas que considero relevantes para a trajetória de qualquer pessoa. Uma delas é o dinheiro e o fruto de seu comportamento a partir das decisões que as pessoas tomam em aspectos diversos, sejam eles nos negócios ou na vida pessoal. Apesar de ser jurista em minha primeira formação, caminho também pelas esferas do conhecimento econômico e financeiro. Tal fato me fez ganhar um espaço diferente, ao palestrar sobre finanças para advogados e estudantes de Direito não somente em Fortaleza, como em praticamente todas as regiões do Ceará. É uma experiência de vida aliada a um trabalho de campo não premeditado que me fez refletir sobre algumas possibilidades, sejam elas para empreender ou no impacto econômico que uma “organização” legislativa causaria em torno dos profissionais liberais. Portanto, não tenho respostas exatas, mas trago aqui algumas considerações e reflexões.
Vejo o dinheiro como instrumento, um “algo” que carrega potencial de acontecimentos futuros. Se será um fruto bom ou não, depende do destino e decisão que cada um se dispôs a dar aos seus recursos. Ao falar de dinheiro, este assunto tão objetivo e claro, porém, tão delicado em alguns pontos, pude notar com base na dinâmica do público (somando mais de 500 alunos) e dos relatos pessoais que recebi, que ainda se trata de um certo tabu. Passei a notar com maior nitidez nos profissionais do direito, mas, ao mesmo tempo, não me impediu de notar também o mesmo padrão comportamental-financeiro em diferentes ambientes e eventos, conversando com diferentes profissionais. Ou seja, não se trata apenas dos juristas. É geral e comportamental, sendo muitas vezes uma herança de experiências passadas, como podemos perceber nas conhecidas heurísticas de comportamento, que muitas vezes são viciosas ao semear uma cultura pessoal e familiar prejudicial ao futuro de todos os envolvidos. Vemos negligência financeira em empresários de diversos segmentos e portes de empresa, no entanto, trago aqui apenas a especificidade dos profissionais liberais, que podem ser de diferentes áreas.
A rotina financeira de um profissional liberal em seu trabalho pode envolver questões básicas como atenção ao fluxo de caixa, tributação, uso de plataformas de gestão e demais situações que demonstram claramente que existe um vácuo de mercado a ser explorado por assessorias financeiras. Os segmentos podem variar, sendo de BPO financeiro, assessoria de investimentos, consultoria patrimonial, assessoria contábil (esta sendo mais tradicional e presente na mente de todos, de modo geral. Mesmo que não utilizem, sentem que é um profissional necessário para resolver muitas demandas), e ainda outros segmentos que podem vir a ser explorados. A negligência patrimonial e da organização financeira se apresenta como oportunidade de negócio. Muitas vezes o profissional utiliza tudo em seu CPF ou mesmo que tenha CNPJ, não se atenta ao que de fato pode lhe prejudicar no futuro, não apenas em “organizar a casa”, mas na existência dos riscos fiscais envolvidos.
Assim, surge também uma reflexão inspirada no formato que funciona a modalidade do MEI. Sabemos que o MEI trata de atividades não regulamentadas e busca sanar a falta de arrecadação que existia causada pela total informalidade. A questão não é trazer o MEI para os profissionais liberais, mas e se existisse uma forma relativamente igual ao que se faz no MEI? Simplificando os tributos e previdência envolvidos a serem pagos mensalmente de forma mais constante e segura para ambas as partes, sendo elas o fisco e o profissional. Por exemplo, nas sociedades advocatícias não existe distinção entre patrimônio da pessoa física e da pessoa jurídica. No MEI também não há distinção, diferente do que ocorre nas Sociedades Limitadas empresárias, em que o patrimônio da personalidade jurídica difere da pessoa física dos sócios. Portanto, tecnicamente, já existem aspectos semelhantes nas duas realidades, que poderiam ter, inclusive, o mesmo limite de faturamento até ter seu porte desenquadrado.
Sendo assim, que impactos econômicos tudo isso poderia ter? Confesso que não consigo mensurar ao certo objetivamente hoje, somente imagino que baseado no princípio de se ter o incremento da atividade de assessoria financeira e a conformidade fiscal-jurídica mais bem estruturada e estabelecida de forma simples, com certeza, por consequência, haveria uma constância maior de arrecadação estatal aliada ao incremento e crescimento do setor privado financeiro. O fruto dessa união pode gerar mais encontros, cursos, obras acadêmicas e o que mais for visto como oportunidade de discussão e de retorno financeiro. Assim, tanto governo quanto o setor privado poderiam se organizar em torno de um determinado segmento que até o momento se apresenta como uma demanda não atendida.
O presente texto busca ser breve e sem grandes aprofundamentos no momento. O ponto buscado foi aquele “fio” central que pode incentivar a atenção direcionada a uma lacuna de mercado. Em última análise, essa organização e proteção seriam basilares para diminuir a negligência patrimonial dos profissionais liberais. A organização das obrigações junto ao governo e da forma que se trata o próprio dinheiro, em aliança à proteção futura contra passivos fiscais, conformidade legal e previdenciária, garantiriam um olhar mais equilibrado na construção do patrimônio.
Decisões negligentes impactam não só na vida do indivíduo que decide, mas a vida de seus descendentes, que podem nem ter nascido ainda. A busca por essa eficiência em um nicho de mercado que demonstra potencial de ganhos, tem um olhar ainda mais profundo que, inicialmente, não se mostra de forma expressa: assegurar estabilidade àqueles que têm um dia a dia muito dinâmico e que muitas vezes é um dos mais vulneráveis no mercado de trabalho. Quantas vezes a rotina se torna mais pesada por não haver uma certeza do faturamento mensal em combinação à quantidade de contas a pagar. A diminuição da preocupação excessiva com dinheiro (ansiedade econômica) e a saída da velha “corrida de ratos” ajudam na saúde mental e o bem-estar do profissional.
Em recente estudo da gestora global de recursos Vanguard, quando um indivíduo não possui nenhum dinheiro guardado, sua mente pensa semanalmente com preocupação sobre dinheiro por 7,3 horas (e acredito que na realidade seja mais tempo ainda). Porém, para aqueles que possuem algum dinheiro guardado, como por exemplo US$ 2.000,00 (dois mil dólares), o tempo gasto pensando semanalmente em dinheiro é de 3,7 horas. Não se trata de uma cifra específica, mas saber identificar como uma vida pode ser tornar mais tranquila e bem vivida com maior segurança em relação ao futuro. Não é somente o “dinheiro no bolso”, é o impacto que esse instrumento milenar causa ao convívio humano.