Expansão digital e educação financeira: avanços e desafios no acesso ao mercado financeiro brasileiro – Felipe Bezerra dos Santos

Felipe Bezerra dos Santos – Mestre em Logística e Pesquisa Operacional, Economista e Professor de Economia da Universidade de Fortaleza.

O acesso ao mercado financeiro brasileiro passou por mudanças significativas nas últimas duas décadas. Investir no Brasil, na década de 1990 e início dos anos 2000, era uma atividade que envolvia barreiras consideráveis. Investir em títulos, ações ou fundos era uma possibilidade restrita, marcada por barreiras relativas a pouca disseminação de informações, baixo nível de conectividade no país, concentração das operações em corretoras localizadas nos grandes centros urbanos, entre outros fatores.

Um dos marcos de modificação desse cenário foi a criação do Tesouro Direto, em 2002, que abriu espaço para que pessoas físicas pudessem investir em títulos públicos. Embora esse marco seja relevante, a transformação mais abrangente decorre da combinação entre expansão digital, diversificação de produtos financeiros e, mais recentemente, do uso de ferramentas de Inteligência Artificial. No entanto, essa não era ainda a realidade do início dos anos 2000.

De acordo com o IBGE, 8,6% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet em 2001, o que dificultava a difusão de informações e impossibilitava, naquele momento, a consolidação de plataformas de investimento como conhecemos hoje. Nesse contexto, o mercado financeiro era percebido como distante da maior parte da população, com reduzida participação nesse universo.

Nos anos seguintes, a conectividade no país avançou de forma gradual, criando as condições para que mudanças mais profundas ocorressem no mercado. A infraestrutura digital se consolidou, permitindo que mais pessoas acessassem informações financeiras e que os canais digitais de investimento se popularizassem gradualmente.

Esse movimento pode ser observado de forma consistente nos levantamentos do IBGE: entre 2016 e 2024, o acesso à internet nos domicílios brasileiros passou de 70,9% para 93,6% (Tabela 1). Esses números confirmam que o meio digital se tornou parte do cotidiano, viabilizando a criação de novos canais de investimento e a massificação do acesso ao mercado financeiro.

Tabela 1 – Domicílios com acesso à internet no Brasil (2016–2024)

   
Ano20162017201820192021202220232024
%70,976,480,684,090,091,592,593,6
Fonte: Elaborado pelo autor com dados do IBGE (2025)   

Toda essa facilidade de acesso à rede, o que permite uma maior participação no universo financeiro, levanta uma preocupação: será que as pessoas possuem conhecimento necessário para adentrar nesse mundo, sabendo se proteger de eventuais riscos inerentes aos investimentos financeiros?

Bom, levando em conta estudos recentes, a resposta tende a ser não. Segundo a Pesquisa Observatório Febraban, realizada em julho desse ano, 74% dos brasileiros acreditam que a população entende pouco ou nada de finanças, embora 91% reconheçam a educação financeira como muito importante para a vida pessoal e profissional.

O mesmo estudo indica que as principais fontes de informação sobre o tema são a internet (22%) e as redes sociais (18%), superando escola ou universidade (15%). Tal informação revela um paradoxo: ao mesmo tempo em que cresce o interesse pelo assunto, a busca por conhecimento muitas vezes ocorre em espaços de qualidade discutível, tornando os indivíduos mais suscetíveis a orientações superficiais ou equivocadas.

Corroborando com isso, estão as informações do Relatório de Letramento Financeiro do Banco Central e do FGC, de 2023, que mede o nível de conhecimento financeiro da população. A nota média foi de apenas 59,6 pontos em uma escala de 0 a 100, e apenas um quarto dos respondentes ultrapassou 70 pontos. O levantamento ainda destaca desigualdades sociais e regionais. Homens, jovens e pessoas de maior renda obtêm resultados melhores, enquanto mulheres, idosos, moradores da região Nordeste e indivíduos de baixa renda ficam abaixo da média.

Além disso, o estudo mostra um contraste entre comportamentos e conhecimentos: a maioria paga contas em dia e controla gastos, mas apenas 14,3% conseguem calcular juros simples, e pouco mais da metade compreende de forma prática o impacto da inflação no poder de compra. O bem-estar financeiro também é limitado: 48,6% estão apenas se virando financeiramente. Nesse contexto, apesar das facilidades de acesso ao mundo dos investimentos, trazida pela maior conectividade e inovações tecnológicas, o que torna mais simples a tarefa de investir, difícil mesmo, para boa parte da população, é dispor de recursos financeiros para tal ação.

Diante disso, torna-se evidente a necessidade de iniciativas que possam mudar esse panorama. Uma iniciativa em andamento é o programa Aprender Valor do Banco Central do Brasil. O programa busca inserir no cotidiano escolar temas relacionados ao planejamento, poupança e investimento, crédito e endividamento, risco e proteção, entre outros temas relacionados com a vida financeira. De acordo com o Banco Central, 24 mil escolas já aderiram ao programa, com a capacitação de professores e de conteúdos pedagógicos alinhados à Base Nacional Comum Curricular. O Banco Central conta com alguns parceiros no programa, como Ministério da Educação, Anbima, Sebrae e CVM.

Por meio dos dados evidenciados, percebe-se que o Brasil apresentou uma expansão digital, o que possibilita a oferta de diversos canais de investimento. Por outro lado, esse quadro também revela fragilidades importantes: enquanto a conectividade cresce, persistem lacunas de conhecimento e desigualdades sociais que limitam o aproveitamento das oportunidades.

A educação financeira, portanto, assume papel central nesse processo. Mais do que garantir à população o acesso a produtos e plataformas financeiras, é preciso assegurar que os indivíduos de diferentes perfis tenham condições de avaliar riscos, tomar decisões conscientes e proteger-se de armadilhas que ainda circulam nos diversos ambientes digitais. Programas como o Aprender Valor mostram que políticas públicas podem atuar na base da formação, mas o desafio envolve também o engajamento de instituições financeiras, escolas, universidades e sociedade civil em geral.

Por fim, entende-se que uma verdadeira democratização do mercado financeiro no país fica a cargo da combinação de inclusão digital, uma diversidade de produtos e, sobretudo, educação financeira. Com a articulação desses elementos será possível transformar o acesso em participação de qualidade.

BANCO CENTRAL DO BRASIL; FUNDO GARANTIDOR DE CRÉDITOS. Relatório de Letramento Financeiro 2023. Brasília: BCB/FGC, 2023. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/cidadaniafinanceira/letramento_financeiro. Acesso em: 06 set. 2025.

FEBRABAN – FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE BANCOS. Observatório FEBRABAN: Julho/2025. São Paulo: FEBRABAN, 2025. Disponível em: https://cmsarquivos.febraban.org.br/Arquivos/documentos/PDF/OBSERVATÓRIO_FEBRABAN_JULHO_2025.pdf. Acesso em: 06 set. 2025.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Acesso à Internet e à televisão e posse de telefone móvel celular para uso pessoal 2016–2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/educacao/17270-pnad-continua.html. Acesso em: 06 set. 2025.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. SANT’ANNA, Roberto Neves. Estatísticas sobre o uso das TIC no Brasil: a experiência do IBGE. Cidade do Panamá: IBGE – Diretoria de Pesquisas, 2006. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/nota_visualiza.php?id_nota=10. Acesso em: 06 set. 2025.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Aprender Valor. Brasília: Banco Central, 2025. Disponível em: https://aprendervalor.bcb.gov.br. Acesso em: 06 set. 2025.

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