O Desafio da Transição Energética sob a Perspectiva da Teoria da Complexidade Econômica – Thiago Costa Holanda

Thiago Costa Holanda – Conselheiro do CORECON-CE e professor do IFCE.

Resumo

A transição energética representa um dos maiores desafios contemporâneos, exigindo transformações estruturais profundas nas matrizes produtivas e energéticas dos países. Este artigo analisa a transição energética a partir da perspectiva da Teoria da Complexidade Econômica (TCE), uma abordagem que compreende o desenvolvimento como resultado da capacidade produtiva e do conhecimento incorporado nas estruturas econômicas. Argumenta-se que a TCE fornece ferramentas analíticas fundamentais para entender as condições que viabilizam a adoção de energias renováveis e a produção de hidrogênio verde. Por meio de uma revisão teórica, sustenta-se que economias mais complexas estão melhor posicionadas para liderar essa transição.

Palavras-chave: Transição energética. Complexidade econômica. Desenvolvimento. Hidrogênio verde.

Introdução

A transição energética global é impulsionada pela urgência climática e pela necessidade de descarbonização das economias. O desafio consiste em substituir progressivamente os combustíveis fósseis por fontes renováveis e sustentáveis, sem comprometer o crescimento econômico ou a coesão social. Nesse cenário, a Teoria da Complexidade Econômica (TCE) oferece uma estrutura analítica promissora ao relacionar o desenvolvimento de uma nação à sofisticação de suas capacidades produtivas (HAUSMANN; HIDALGO, 2013).

A TCE entende a economia como um sistema em constante transformação, no qual o conhecimento tácito e as interações entre agentes desempenham papel central na diversificação e sofisticação produtiva (HIDALGO, 2015).

Diante disso, a compreensão dos caminhos para a transição energética deve considerar a estrutura produtiva dos países e o conhecimento incorporado em seus processos, especialmente para tecnologias emergentes como o hidrogênio verde.

Complexidade Econômica: Fundamentos e Medidas

A complexidade econômica é definida como a capacidade de um país de produzir e exportar uma ampla gama de produtos sofisticados que exigem a combinação de múltiplas competências, conhecimentos técnicos e capacidades institucionais. Segundo Hidalgo e Hausmann (2009), essa capacidade é resultado da acumulação histórica de conhecimento produtivo, muitas vezes incorporado em redes de pessoas, empresas e instituições, que possibilitam a criação de bens e serviços intensivos em conhecimento. A complexidade econômica, portanto, não está associada apenas à quantidade de produtos que um país fabrica, mas sobretudo à natureza do conhecimento necessário para produzi-los.

Esse conhecimento é, em larga medida, tácito, ou seja, não formalizável, difícil de ser transferido entre indivíduos e dependente de experiências específicas e do ambiente institucional em que se desenvolve. Conforme Hidalgo (2015), o desenvolvimento econômico se dá na medida em que as sociedades aprendem a mobilizar esse conhecimento tácito de maneira coordenada, gerando arranjos produtivos capazes de sustentar produtos complexos e inovadores.

Para medir essa sofisticação, os autores propuseram o Índice de Complexidade Econômica (ECI), construído a partir de dados de comércio internacional. O ECI baseia-se em uma análise de rede bipartida que conecta países aos produtos que exportam com vantagem comparativa revelada, considerando simultaneamente a diversidade produtiva (quantidade de produtos diferentes que um país exporta) e a ubiquidade desses produtos (quantos outros países também os exportam).

Produtos considerados complexos tendem a ser exportados por poucos países e, geralmente, apenas por aqueles que também produzem muitos outros bens sofisticados, o que sugere a presença de capacidades produtivas avançadas.

Assim, a presença de um produto raro em uma economia muito diversificada indica uma estrutura produtiva sofisticada e adaptável (HIDALGO et al., 2007). O método das reflexões, desenvolvido para calcular o ECI, utiliza uma série de iterações recursivas entre diversidade e ubiquidade para gerar uma medida robusta da complexidade econômica de cada país.

De acordo com Stojkoski, Utkovski e Kocarev (2016), a complexidade econômica expressa a capacidade de uma sociedade de combinar e recombinar elementos de conhecimento dispersos entre diferentes agentes econômicos. Essa recombinação é essencial para a inovação, uma vez que permite a criação de novos produtos e tecnologias que requerem competências antes não integradas.

Economias complexas, nesse sentido, operam como sistemas adaptativos que respondem dinamicamente às mudanças no ambiente tecnológico e global, aumentando sua resiliência frente a choques externos e sua competitividade internacional.

Além disso, como apontam Hausmann e Hidalgo (2013), a complexidade econômica está fortemente correlacionada com indicadores de desenvolvimento humano, níveis de renda per capita e estabilidade institucional. Países com maiores níveis de complexidade tendem a apresentar trajetórias de crescimento mais sustentáveis e diversificadas, evitando armadilhas da dependência de commodities ou de setores de baixa intensidade tecnológica.

A literatura contemporânea também tem ressaltado a importância da complexidade para a coesão social e para a redução das desigualdades. Hartmann et al. (2017) argumentam que a sofisticação produtiva permite uma distribuição mais equilibrada das oportunidades econômicas, ao estimular setores de maior valor agregado e empregos qualificados. Esse aspecto é particularmente relevante para países em desenvolvimento, que buscam escapar da armadilha da renda média por meio da transição para atividades intensivas em conhecimento.

Em termos metodológicos, a complexidade econômica constitui uma abordagem que supera limitações dos indicadores tradicionais de desenvolvimento, como o PIB, ao captar as capacidades latentes de uma economia. Isso a torna uma ferramenta analítica útil para a formulação de estratégias industriais, políticas de desenvolvimento regional e, mais recentemente, para o desenho de rotas viáveis de transição energética — especialmente em um contexto de mudanças tecnológicas rápidas e pressões ambientais crescentes (WARTMANN, 2023; CALDAROLA et al., 2023).

A complexidade econômica, portanto, representa não apenas uma métrica quantitativa de sofisticação produtiva, mas um paradigma interpretativo que compreende o desenvolvimento como um processo acumulativo, interativo e dependente da articulação entre conhecimento, capacidades e estrutura institucional.

Transição Energética: Natureza e Desafios

A transição energética não pode ser compreendida como uma simples substituição técnica de fontes energéticas. Trata-se de uma transformação estrutural profunda, que implica mudanças nos padrões de consumo, produção, infraestrutura, política industrial e sistemas regulatórios (SANTOS, 2025).

Como observam Wartmann (2023) e Caldarola et al. (2023), a complexidade do processo exige capacidades institucionais e tecnológicas específicas, que nem todos os países possuem igualmente.

A perspectiva da TCE é especialmente relevante, pois reconhece a economia como um sistema fora de equilíbrio, em constante adaptação e criação de novas estruturas (ARTHUR, 1992). Essa visão contrasta com abordagens neoclássicas que assumem a existência de equilíbrios estáticos e eficientes. Na TCE, os agentes econômicos ajustam continuamente suas estratégias em resposta a interações recursivas, configurando dinâmicas de emergência e inovação (HIDALGO, 2021).

Estudos recentes sugerem uma correlação positiva entre complexidade econômica e desempenho ambiental. Países com estruturas produtivas mais complexas tendem a apresentar emissões per capita mais baixas e a adotar tecnologias de menor intensidade energética (WAN et al., 2022). Essa relação, contudo, é não linear. Como demonstrado por Hartmann et al. (2017), existe uma curva em “U” invertido entre o nível de complexidade e a intensidade energética: na fase inicial da industrialização, o aumento da complexidade pode gerar mais emissões, mas posteriormente estimula inovações verdes que reduzem o impacto ambiental. Nesse sentido, políticas públicas que promovam a diversificação produtiva e o avanço tecnológico podem gerar sinergias entre crescimento econômico e sustentabilidade ambiental, uma agenda particularmente relevante para países em desenvolvimento como o Brasil.

O hidrogênio verde (H₂V) desponta como um vetor estratégico na transição energética, por permitir o armazenamento de energia renovável e sua aplicação em setores de difícil eletrificação, como siderurgia, fertilizantes e transporte pesado (EPE, 2021). No entanto, sua produção exige capacidades tecnológicas complexas, como a manufatura de eletrolisadores, integração com redes elétricas inteligentes e gestão de cadeias de suprimento altamente técnicas (ANGELICO et al., 2025). A produção de H₂V, portanto, se insere no espaço de produtos como uma atividade de alta complexidade, que pode representar uma oportunidade de diversificação verde para países com estrutura produtiva sofisticada. Conforme argumentam Chu (2023) e Anwar et al. (2024), o desenvolvimento de cadeias de valor baseadas em hidrogênio requer investimento coordenado em infraestrutura, qualificação de mão de obra e políticas de inovação.

Oportunidades e Limitações no Caso Brasileiro

O Brasil possui vantagens comparativas relevantes para se posicionar como protagonista na economia do hidrogênio, como abundância de recursos renováveis, matriz energética limpa e potencial exportador.

O estado do Ceará, por exemplo, tem se destacado com a proposta de um Hub de Hidrogênio Verde, combinando recursos solares e eólicos com infraestrutura portuária estratégica (BENVINDO, 2024). A localização geográfica favorável, a estabilidade regulatória no setor elétrico e os acordos de cooperação internacional firmados nos últimos anos reforçam o potencial do Brasil como fornecedor competitivo de H₂V no mercado global.

Contudo, o país ainda apresenta limitações em termos de complexidade econômica, especialmente na produção de bens de alta tecnologia (DUARTE, 2024). A estrutura produtiva nacional é ainda fortemente ancorada em setores de baixa intensidade tecnológica, como agricultura extensiva e mineração. Essa lacuna sugere que a transição energética no Brasil exigirá não apenas investimento em fontes renováveis, mas também políticas de fortalecimento das capacidades produtivas locais, conforme apontado por Hidalgo (2021). Sem um salto qualitativo nas competências industriais, o país corre o risco de ocupar uma posição periférica na cadeia global do hidrogênio, restrito ao fornecimento de energia primária ou insumos básicos, sem capturar os benefícios tecnológicos e econômicos associados à inovação.

Essa preocupação é intensificada pela tendência histórica de reprimarização da pauta exportadora brasileira, que aprofunda a dependência de commodities e reduz os incentivos à diversificação produtiva.

Em contraste com países que utilizam a transição energética como vetor de modernização industrial, o Brasil ainda carece de uma estratégia integrada que conecte suas vantagens naturais com uma política industrial orientada à sofisticação tecnológica. A literatura sobre complexidade econômica sugere que o aproveitamento efetivo do potencial do hidrogênio verde requer mais do que infraestrutura física: é necessário investir em redes de conhecimento, pesquisa aplicada, formação de capital humano e governança multiescalar (ANGELICO et al., 2025). Além disso, a promoção de consórcios público-privados, o apoio a startups tecnológicas e o estímulo à inserção de universidades e centros de pesquisa nas cadeias de valor do H₂V podem contribuir para consolidar um ecossistema nacional de inovação energética.

Diante disso, torna-se pertinente que o sucesso da transição energética brasileira dependerá da capacidade de superar a lógica extrativista que historicamente moldou sua economia. A adoção de uma abordagem baseada na complexidade econômica permitiria identificar trajetórias de diversificação produtiva mais eficazes, reduzindo vulnerabilidades externas e promovendo um desenvolvimento mais inclusivo e sustentável.

Considerações Finais

A Teoria da Complexidade Econômica fornece uma lente analítica útil para compreender os desafios e as oportunidades da transição energética. Ao considerar a estrutura produtiva e o conhecimento incorporado nas atividades econômicas, a TCE permite avaliar a capacidade de adaptação dos países a tecnologias limpas e inovadoras, como o hidrogênio verde.

A evidência teórica e empírica aponta que economias mais complexas estão melhor preparadas para liderar essa transição, ao passo que países menos sofisticados enfrentam obstáculos significativos. A experiência brasileira demonstra que recursos naturais abundantes não são suficientes: é preciso investir em conhecimento, inovação e articulação produtiva.

Dessa forma, a integração entre políticas de energia, inovação e desenvolvimento produtivo, inspirada na TCE, pode oferecer caminhos sustentáveis para o futuro energético global.

Referências

ANGELICO, B. et al. Green Hydrogen: Global Research Landscape and Collaboration Patterns. Energy Reports, v. 11, p. 134–152, 2025.

ARTHUR, W. B. On Learning and Adaptation in the Economy. The American Economic Review, v. 82, n. 2, p. 406–411, 1992.

BENVINDO, J. S. Competitividade do Brasil na transição energética com o Hub do Hidrogênio Verde do Ceará. Fortaleza: UFC, 2024.

CALDAROLA, E. et al. Economic Complexity and the Energy Transition: A Global Analysis. Environmental Science and Pollution Research, v. 30, p. 5561–5578, 2023.

CHU, X. Mapping Hydrogen Transitions and Economic Complexity. Research Policy, v. 52, n. 4, 2023.

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WAN, Y. et al. Economic Complexity and Carbon Emissions: Evidence from OECD Countries. Journal of Cleaner Production, v. 368, 2022.

WARTMANN, F. Measuring Economic Complexity for Green Growth Transitions. Regional Studies, v. 57, p. 101–118, 2023.

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